domingo, 7 de agosto de 2016

O que queria ter-te dito


Sabes do sofrimento teu e meu.

Amanhã vou levar-te lírios

Da nossa casa,

Da casa a que ansiavas sempre voltar,

Quando estávamos fora.

A tua vida foi um exemplo de coragem,

Adoravas viver,

Lutaste tanto, lutámos tanto

Mas a doença venceu-te, venceu-nos

E agora choro lágrimas secas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O último cigarro


O último cigarro

Agosto de 2013 - Um copo de rosé bem fresco (o calor é muito) e um cigarro que, infelizmente, nunca é demais.
Todos os objectos te lembram. Deitei fora a chávena em que tomavas o medicamento para a memória. Que quero? Apagar todos os vestígios que deixaste? É demasiado doloroso conviver com todas estas recordações. Talvez deseje que fiques só tu. Já não estás. Todos os dias olho para o sofá em que te sentavas, como uma espera que lá estejas.
Estou deprimida. Faço apenas o essencial para me manter viva. Instinto de sobrevivência? Tudo o resto que dantes gostava de fazer fica para amanhã.
Arrasto-me, cigarro após cigarro. Fumei o último cigarro do maço que tinhas nos cuidados paliativos.
Novembro de 2013 - A tua casa, a nossa casa está à venda. Só querias estar em casa, quando estavas fora, voltar à Aldeia de Joanes. Era o melhor sítio do Mundo.
Dezembro de 2013 - Hoje fui comprar alguns presentes de Natal, como por obrigação. Triste. Havia sempre o teu presente para mim e o meu para ti. Hoje não há nada: não há árvore de Natal nem enfeites. Arrasto-me. Faço tudo porque é assim.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Glicínias


Pela primeira vez, em 5 anos, a glicínia floriu. Foi como me disseram: flores só 5 anos depois de plantada.

As flores são ainda tímidas em mostrar o seu fulgor.

Tu já não estás para as ver.
Que conversa poderíamos fazer.

Mas só restam a glicínia e as suas flores.

sábado, 22 de março de 2014

Actual

Encontrei nos meus papeis, já não me lembro quem é o autor, mas achei bonito e apropriado aos tempos que vivemos:


Vivendo, nem tudo admito

mas sofro e vejo
que a vida é tão contrária ao que desejo.

O que mais me admira e entristece
e, afinal, faz com que não me iluda
é ver tanta, tanta gente muda
e a facilidade com que essa gente esquece.

(Adaptado)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Lareira

Neste Outono de 2013 é a primeira vez que acendo a lareira. Já começava a apetecer, com este tempo fusco embora não frio.

É uma companhia.

Qualquer destes gestos, por mais simples que seja, me custa. Fazia-os contigo e para ti.

É só um apontamento.

domingo, 3 de novembro de 2013

O Estado da Nação e Funções Sociais do Estado

Há pouco mais de um ano, publiquei o seguinte artigo num outro blogue. Volto a publicá-lo porque lhe encontro ainda mais actualidade.
"A situação que a Nação está a viver é terrível, não só pelas restrições que têm caído sobre o povo português, a existência de milhares de desempregados, o aumento da pobreza extrema, como pela destruição das funções sociais do Estado.
 Enquanto, amanhã no Parlamento, se estará a debater o Estado da Nação, realiza-se o primeiro dia da Greve Nacional dos Médicos em defesa do Sistema Nacional de Saúde.
Convergindo com a luta dos médicos, está marcada para Lisboa uma manifestação de Professores, Educadores e Investigadores promovida pela FENPROF, manifestação de protesto, indignação e exigência de condições que permitam a continuação de um dos mais importantes pilares da nossa democracia, a Escola Pública.
Para além das reivindicações profissionais destes dois sectores, e o debate parlamentar assim o evidenciará, estas duas lutas têm como denominador comum a defesa de Funções Sociais do Estado que o atual Governo, alicerçado no “patriótico” acordo com a troika, tem procurado destruir: o Sistema Nacional de Saúde e a Escola Pública. A destruição, o desejo de que a mesma se efetive são notórios. Depois de o Tribunal Constitucional se ter pronunciado sobre a inconstitucionalidade da suspensão dos subsídios a funcionários públicos e aposentados, o primeiro-ministro Passo Coelho questionou a oposição sobre “onde se poderia cortar mais na Educação e na Saúde” (cito de memória). Porque se terá lembrado logo da Saúde e da Educação?
 As medidas que se têm verificado na Educação e que se prefiguram para o próximo ano letivo (super – mega – agrupamentos, a chamada revisão curricular, o aumento do número de alunos por turma) têm um só sentido: cortar. Prevê-se um aumento abissal do desemprego docente, cerca de 25 mil entre professores contratados e dos quadros Mas mais: a Educação deixará de ter como objetivo principal a formação integral de indivíduos, conscientes e críticos, capazes de se adaptarem a um mundo em constante mudança, onde o conhecimento explode a passos largos (não confundir com passos de coelho).
 Neste momento, há razão para que todos os Portugueses se preocupem com a Escola Pública como parte integrante do Estado Social e a (não) qualidade das suas respostas. Recordemos Martin Niemoller.
"Primeiro, os nazis vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, eu me calei.
Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, eu não protestei.
Então, vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, eu me calei. Então, eles vieram buscar os católicos e, como eu era protestante, eu me calei.
Então, quando vieram buscar-me... Já não restava ninguém para protestar."

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Parque de Campismo de Coimbra


Nas nossas múltiplas idas a Coimbra, ficámos muitas vezes num bungallow do Parque de Campismo.

Era mais barato do que o Hotel, podia fazer-se (ou aquecer-se) o jantar que ia da Aldeia de Joanes, tudo economias, e, quando o tempo estava bom, tínhamos magníficos pôr-de-sol.

No dia seguinte, consulta e/ou quimioterapia.

No final de 2012, fomos dispensados destas idas. O prognóstico estava feito.

Não haverá, para nós, mais daqueles ocasos espectaculares.